Portugal vai ter selo “Smart Project for Smart Cities”

Sabemos que muitas modas são efémeras, transitórias. Sabemos que a adoção de posturas, políticas e a escolha de caminhos são muitas vezes influenciados pelo “barulho” mediático, pela imensa informação que chega através dos canais de comunicação diversos que hoje o mundo tem ao seu dispor para entrar pelas nossas mentes, induzir-nos comportamentos, vontades e impulsos. Sabemos isso tudo. E também é verdade que abraçamos esta verdade variadas vezes de forma inconsciente, mas muitas outras totalmente conscientes e de forma natural.

Há algumas semanas, um responsável institucional dizia na sua forma mais decidida e eloquente, que esta “coisa” das Smart Cities era uma moda. Uma coisa passageira, que “não tarda desaparece”. Como ele, há muitos outros a pensar assim. De facto, há uma imensidão de informação que é lançada diariamente que foca a temática das Smart Cities como se fosse uma moda à qual todos devem aderir freneticamente, imediatamente e inevitavelmente. É verdade que há informação refeente às cidades inteligentes que já enjoa (pelo menos a mim já me dá a vota ao estômago). Não porque seja informação errada, falsa ou irresponsável, mas porque é desadequada, arcaica e, pasme-se, completamente ‘démodé’. Exacto! Há canais de comunicação, sobretudo os tradicionais (jornais, rádios, TV) que estão a mediatizar soluções que são já tudo menos inteligentes. Algumas são até obsoletas e insignificantes, face à quantidade enorme de temas interessantes que, por não terem tanto potencial comunicacional atrativo, acabam por se perder pelas redações. São muitos os exemplos de cidades que comunicam pequenas supostas ‘inovações’ (mudar as lâmpadas tradicionais para led por exemplo) que nos dias de hoje, deveriam ser já coisas do passado, mas ainda há cidades que não têm iluminação inteligente. E não têm não se sabe bem porque. Há alguns meses atrás, uma pequena empresa do Norte da Europa, propôs a um autarca avançar com um teste piloto de iluminação de última geração. Nunca obteve resposta. Contudo, a cidade que esse autarca gere, gaba-se de ter edifícios verdadeiras marcas arquitectónicas e organiza passeios de bicicleta BTT, tem ruas exclusivamente para peões e um balcão de atendimento aos munícipes, de topo. Mas não tem, ainda, Smart Lights, nem tem sistemas inteligentes de rega dos espaços verdes por exemplo (a água corre pelas ruas durante o verão, atinge os carros de janelas abertas, inunda passeios e gasta demais). Nem tem aplicações mobile, nem os sistemas web e informação online e comunicação com os munícipes são deste século. Este aparente desfasamento entre o que o responsável publico pensa que tem e aquilo que uma cidade inteligente deve ter é um dos factores que mais cedo ou mais tarde é colocado em cima da mesa e analisado à luz das modas. E quando se cede mais tarde às modas, as soluções adoptadas são caras, ineficientes e insustentáveis. Não são inteligentes como, por exemplo, é sinal de inteligência, aproveitar o potencial das pequenas e medias empresas, startups que estão dispostas a promover os seus serviços e produtos de uma forma freemium até (quase gratuita num primeiro momento) mas que, por uma razão que a razão desconhece, é mais simples contratualizar em Portugal milhões com as gigantes como EDP e PT, por exemplo, do que milhares (tostões) com as pequenas startups.

O curioso é que isto ocorre um pouco por todo o mundo e nomeadamente no mundo das Smart Cities. E depois há as exceções. Há os casos em que as grandes empresas, apercebendo-se da dificuldade de criar uma imagem de aceitabilidade e socialmente pacífica, apoiam as empresas mais pequenas, e também do lado das cidades são criados ecossistemas de fornecedores com soluções de todo o tipo. A própria União Europeia, tem uma plataforma de Stakeholders onde todas as soluções, (umas inovadoras, outras nem tanto) estão ao dispor dos decisores, de quem administra, de quem decide.

 

A última palavra pertence a quem decide!

 

A partir daqui, de uma decisão, é necessário avançar para outro patamar: avaliar as decisões e classificar os seus efeitos na cidade. Ora este processo fica, normalmente, entregue ao livre arbítrio de quem recebe os comunicados de imprensa e coloca a etiqueta ‘Smart’ na informação que transfere para o público geral. E sim, todos nós conhecemos casos de localidades etiquetadas ‘Smart’, mas que os índices e os métodos científicos depois não confirmam.

Tornava-se, portanto, imperioso avançar com outra solução. Um verdadeiro processo de identificação e classificação de cidades inteligentes em Portugal. Um processo baseado em índices e estudos internacionalmente reconhecidos e que não deixasse margens para dúvidas, que identifique e assinale falhas, potencialidades e que sirva, sobretudo, como ferramenta para o desenvolvimento territorial do país, das cidades, das regiões.

O Selo “Smart Project for Smart Cities” tem também essa função entre os seus variadíssimo objectivos e pressupostos. Prestes a ser apresentado publicamente pela INTELI, entidade gestora do Living Lab RENER – Rede de Cidades Inteligentes em Portugal, integrado por 25 cidades nacionais e membro da Rede Europeia de Living Labs.

Diga-se que a INTELI já tinha aplicado uma ferramenta de intelligence designada “Índice de Cidades Inteligentes” a 20 das 25 autarquias da rede RENER, com vista a avaliar o nível de inteligência urbana dos municípios e a propor o desenvolvimento de projectos conjuntos. Os resultados da 1ª edição foram publicados em Dezembro de 2012, sendo que a 2ª edição vai ser lançada ainda este ano.

É também a entidade coordenadora da plataforma colaborativa Smart Cities Portugal que pretende “afirmar Portugal como fornecedor de tecnologias, produtos e sistemas de elevado valor acrescentado para cidades inteligentes a nível global, assim como espaço de desenvolvimento, experimentação e teste de soluções inovadoras em contexto real”. Segundo informação interna, agrega os principais agentes da cadeia de valor da indústria fornecedora de soluções para smart cities, como polos de competitividade e clusters, empresas, empreendedores, universidades e centros de investigação, autarquias e organismos públicos.

 

Segunda edição do Índice de cidades inteligentes ainda este ano

 

O selo que será apresentado em breve tem como principal objectivo, “distinguir projetos associados ao conceito de ‘cidade inteligente’, numa lógica de promover o desenvolvimento de cidades inovadoras, sustentáveis, inclusivas e conectadas, geridas segundo o conceito de governação aberta e orientadas para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos”.

E tem outros objectivos mais específicos:

  • Conferir notoriedade a projectos de inteligência urbana, reforçando a sua visibilidade nacional e internacional;
  • Reconhecer publicamente projectos assentes no desenvolvimento de soluções inovadoras para a resolução de problemas urbanos;
  • Promover a imagem dos promotores dos projectos, sejam cidades, empresas e/ou outros actores económicos e sociais no mercado internacional das smart cities;
  • Valorizar as competências, capacidades e a oferta tecnológica nacional no contexto internacional;
  • Fomentar a formação de parcerias para o desenvolvimento de projectos associados ao conceito de ‘cidade inteligente’.

 

Destina-se a autarquias, empresas, centros de investigação, organizações não-governamentais ou consórcios de entidades públicas e privadas e vai incidir sobre quase todas as áreas temáticas atuais, a saber:

  • Governação: abertura de dados, participação e envolvimento dos cidadãos, e-government, etc.
  • Ambiente: gestão da água, gestão de resíduos, gestão de espaços verdes, monitorização ambiental, etc.
  • Edifícios, infra-estruturas e planeamento urbano: gestão de edifícios verdes, infra-estruturas verdes, domótica, materiais inteligentes, etc.
  • Energia: energias renováveis, produção e armazenamento de energia, redes inteligentes (smart grids), eficiência energética, smart metering, iluminação pública, etc.
  • Mobilidade: novos paradigmas de mobilidade, sistemas de transportes inteligentes, fontes de energia alternativas para a mobilidade, etc.
  • Segurança: serviços de segurança, videovigilância, gestão de emergências, etc.
  • Turismo e cultura: sistemas de informação cultural, turismo digital, etc.
  • Saúde e educação: soluções de telemedicina, e-learning, etc.

 

São elegíveis os projetos que satisfaçam cumulativamente as seguintes condições:

  • Projectos associados ao conceito de ‘cidade inteligente’, que pretendem dar resposta a 3 problemas urbanos ou satisfazer necessidades prementes da vida das cidades de forma inovadora;
  • Projectos que valorizem conhecimento, competências e tecnologias nacionais;
  • Projectos que versem sobre as áreas temáticas acima identificadas;
  • Projectos desenvolvidos pelas entidades acima descritas como destinatários;
  • Projectos concluídos nos últimos 3 (três) anos ou que estejam em execução há pelo menos 1 (um) ano.

 

Os critérios subjacentes à atribuição do selo “Smart Project for Smart Cities” a projectos concretos são descritos de seguida, tendo ponderações diferentes no processo de avaliação:

INOVAÇÃO

  • Originalidade e criatividade
  • Resposta e uma necessidade premente ou problema urbano por resolver
  • Grau de inovação tecnológica
  • Grau de inovação organizacional (gestão, modelo de negócio, etc.)
  • Nível de integração das soluções urbanas
  • Grau de interoperabilidade das soluções urbanas

IMPACTOS

  • Contributo para a sustentabilidade ambiental
  • Contributo para a atratividade das cidades
  • Contributo para a governação das cidades
  • Contributo para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos
  • Extensão das pessoas afectadas/beneficiadas
  • Grau de incorporação nacional e local

EXECUÇÃO

  • Viabilidade/grau de sucesso da implementação técnica
  • Horizonte temporal de execução
  • Robustez das parcerias associadas ao projeto
  • Nível de envolvimento dos cidadãos (inovação centrada no utilizador)

MODELO DE NEGÓCIO

  • Sustentabilidade económico-financeira do projeto
  • Robustez das fontes de financiamento
  • Tempo de recuperação do investimento

REPLICAÇÃO

  • Capacidade de replicação noutras cidades (efeito demonstrador)
  • Potencial de difusão e adopção das soluções por utilizadores
  • Relevância para os mercados internacionais

A atribuição do selo permite que os projetos distinguidos possam utilizá-lo em todas as suas iniciativas de comunicação. Para tal, foi definido um Guia de Normas da Utilização do Selo.

O selo tem a validade de 3 anos, podendo tal período ser prorrogado face a nova avaliação, nomeadamente em virtude dos resultados dos projetos.

As candidaturas para atribuição do selo serão abertas periodicamente.

 

smartcitiesportugal

 

Evento Internacional vai debater as “Cidades para as pessoas”

 

O selo será apresentado no próximo grande evento organizado pela INTELI, marcado para o próximo dia 24 de Outubro em Vila Nova de Gaia. Sob o título ‘Smart Cities, It’s all about People’ esta conferencia internacional assume que tem sido dado, na comunicação atual, pouco ênfase à dimensão humana das cidades que muitos consideram que devem ser optimizadas para um ecossistema de hardware e software. Contudo, a INTELI entende (e vai fazer notar isso nesta conferencia) que há uma oportunidade para o crescimento de mercados inovadores que desenvolvam economicamente as cidades, as regiões, os países. Assume mesmo que existe, atualmente, uma “visão neoliberal e pró-tecnológica” que privilegia o investimento em infraestruturas “caríssimas” tanto nas atuais cidades como nas novas e emergentes localidades em todo o globo.

Na perspetiva da organização do evento existe a necessidade de surgir uma transformação social que melhore as condições das pessoas e que coloque ênfase no cidadão, na inteligência coletiva que permita mais colaboração e ação democrática.

No evento Smart Cities It’s All About People, serão apontados caminhos e possíveis saídas para os dilemas da sociedade atual, para os dilemas das modas e caprichos de cidades em todo o mundo, das grandes às mais pequenas. Torna-se imperioso a convergência de conceitos, índices e classificações. É urgente até. Porque se tudo se mantiver como está, desta forma, com aparentes divisões ideológicas e opiniões desinformadas e decididas a boicotar o que deve ser uma cidade inteligente na sua essência à luz do século em que vivemos e das necessidades presentes da humanidade, o que resultar daí não será necessariamente bom. Nem tão pouco deixará oportunidade para vislumbrar o bom.

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Vitor Pereira

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After 20 years of Journalism and Media Professional, I'm dedicated since 2008 to new projects related with Innovation and Technology. Consultant of many municipalities to the Smart Cities theme and Tourism sector based on the newest technologies and communication tools.

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