Smart Sodoma e Smart Gomorra

Nuremberg_chronicles_f_21r

Sabemos como foram as cidades do passado e conhecemos as cidades do presente. E as do futuro, como serão?

Não, não se trata de um texto de índole sexual ou com atrevimento apimentado pela circunstância de incluir no título duas das cidades mais importantes da história da humanidade.

Existem variadas versões e interpretações sobre o infortúnio destino destas cidades bíblicas, não me vou adentrar pelos detalhes polémicos e insuperáveis entre os mais diversos historiadores, investigadores e sobretudo, homens da religião, cuja ‘versão’ aceitável tem obrigatoriamente de incluir o castigo divino pelos pecados capitais da luxúria, soberba e homossexualidade.

Partindo desta versão, estará hoje em dia a humanidade a reviver a história? Alguns mais conservadores assim acreditam e vociferam contra a proliferação dos mesmos comportamentos exuberantes que há milénios atrás, alegadamente, desencadearam a fúria de Deus, que enviou anjos para cortar o mal pela raiz, destruindo e evaporizando todos os sinais de pecado, com exceção de Ló e da sua família a quem foi permitido fugir a tempo de Sodoma. Pior sorte tiveram os restantes habitantes destas que chegaram supostamente a ser das cidades mais importantes e prósperas da humanidade.

Mas Ló não era um cidadão comum de Sodoma. Seria diferente, uma minoria. Acompanhado de suas filhas, Ló, segundo o relato bíblico de Genesis, viu a sua habitação rodeada de uma multidão que queria ter relações sexuais com os homens (os anjos) que o patriarca acolheu:

Gen 19 – E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra;
E disse: Eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os vossos pés; e de madrugada vos levantareis e ireis vosso caminho. E eles disseram: Não, antes na rua passaremos a noite.
E porfiou com eles muito, e vieram com ele, e entraram em sua casa; e fez-lhes banquete, e cozeu bolos sem levedura, e comeram.
E antes que se deitassem, cercaram a casa, os homens daquela cidade, os homens de Sodoma, desde o moço até ao velho; todo o povo de todos os bairros.
E chamaram a Ló, e disseram-lhe: Onde estão os homens que a ti vieram nesta noite? Trazeos fora a nós, para que os conheçamos.
Então saiu Ló a eles à porta, e fechou a porta atrás de si,
E disse: Meus irmãos, rogo-vos que não façais mal;
Eis aqui, duas filhas tenho, que ainda não conheceram homens; fora vo-las trarei, e fareis delas como bom for aos vossos olhos; somente nada façais a estes homens, porque por isso vieram à sombra do meu telhado.
Eles, porém, disseram: Sai daí. Disseram mais: Como estrangeiro este indivíduo veio aqui habitar, e quereria ser juiz em tudo? Agora te faremos mais mal a ti do que a eles. E arremessaram-se sobre o homem, sobre Ló, e aproximaram-se para arrombar a porta.
Aqueles homens porém estenderam as suas mãos e fizeram entrar a Ló consigo na casa, e fecharam a porta;
E feriram de cegueira os homens que estavam à porta da casa, desde o menor até ao maior, de maneira que se cansaram para achar a porta.

 

Interessante a perspetiva de Ló que chegou mesmo a ser santificado séculos mais tarde. Pedia misericórdia para os homens masofereceu” as filhas para a violação coletiva. Interessante a vontade da multidão que não se mostrou interessada nos indivíduos do sexo feminino insistindo na intenção de violar os varões que eram afinal os emissários de Deus. Também Deus perdoou mais tarde a família de Ló, especialmente as filhas que conceberam do próprio pai! Esses sim, pecados que hoje, são moralmente piores na nossa sociedade moderna.

Outras versões da história referem-se à “indelicadeza” com que os habitantes de Sodoma recebiam os forasteiros. Uma total ausência de hospitalidade. Há mesmo quem justifique que foi este o grande pecado de Sodoma, Gomorra e das outras cidades vizinhas. Hospitalidade essa que Ló executou na perfeição, dando guarida e comida aos ‘forasteiros’ que eram afinal os anjos vingadores, incumbidos da tarefa de destruir o mal pela raiz, acabando com a luxúria, os abusos, a total ausência de caridade, amor e compaixão para com os seus semelhantes.

 

Vive o Mundo actual em pecado constante?

 

Não faltam comparações com diversas cidades contemporâneas. Há hoje muitas Sodomas e Gomorras que vivem no sobressalto constante da destruição e do castigo divino.

Naked Italians in BarcelonaTêm sido relatadas situações recentes de abusos por parte dos turistas, nomeadamente de Barcelona, cujas ruas se transformaram, para muitos dos cidadãos daquela cidade, “num palco indigno”.

Cidadãos esses que pedem uma intervenção quase divina para acabar com os comportamentos abusivos e indignos dos turistas que ocupam algumas cidades de uma forma tão massificada que já quase se confundem com os próprios residentes.

Ora Deus parece estar de folga pois não existem relatos da reserva de nenhum anjo do apocalipse no Airbnb ou Booking.com.

E também as cidades, agora mais inteligentes que há milénios atrás, procuram formas de combater e minimizar os efeitos de cataclismos da natureza.

Os destinos turísticos massificados vivem dias problemáticos, Lisboa, por exemplo, com a invasão de Tuk-tuks, assiste-se a um verdadeiro “urbanicídio” dos sítios classificados da Unesco que recebem cada vez mais visitantes, Barcelona está farta dos abusos do turismo de bebedeira, Amsterdão, outrora uma cidade pouco famosa neste tema, hoje em dia, parece ter encontrado o seu ponto de equilíbrio, e, curiosamente, fruto da integração de cidadãos e residentes de orientações sexuais, religiosas e étnicas “diversas”, mas integrados numa evidente (e crescente) classe social, a ‘classe criativa’.

 

Smart Cities… careful

 

As Smart Cities pedem cidadãos inteligentes, pelos vistos, com o passar dos milénios, os exemplos de boa conduta, hospitalidade, compaixão, bondade e ajuda ao próximo deixaram de ter fronteiras de cariz sexual ou comportamental.

Porque afinal de contas poderá muito bem ter sido este um dos pecados de Sodoma, porventura mais grave que os de cariz sexual e que deu origem a todas as conotações com a cidade ancestral.

mercedes_benz_c63_amg_chrome_dubai_image_004Viver numa cidade onde não se olha para os problemas dos nossos concidadãos, onde pessoas morrem por falta de alimento, cuidados de saúde e outras vivem na pobreza extrema e indigência total, ao mesmo tempo que outros cidadãos conduzem verdadeiras máquinas douradas, gastam fortunas em restaurantes e hotéis luxuosos, abrem garrafas de vinhos milionários e fumam charutos feitos com notas de dólar. Cuidado! Podemos estar a viver em pecado extremo e o castigo pode chegar em qualquer momento.

Mas ainda vamos a tempo de inverter a situação. E caindo no cliché de dizer “com a ajuda de Deus”, também considero que as políticas públicas são fundamentais para ordenar, limitar e minimizar os excessos. Quando não vemos políticas de qualquer espécie e olhamos para a inação dos muitos dos que nos governam, aí até fico na dúvida se os anjos não passaram já por alguns locais, cegando uma grande parte da população e deixado outra a definhar e a debater-se por chegar a Zoar, sem olhar para trás, não vá Deus transformar-nos também em estátuas de Sal.

Esta publicação também está disponível em: Inglês, Espanhol

About Vitor Pereira
Vitor Pereira

View all Posts

After 20 years of Journalism and Media Professional, I'm dedicated since 2008 to new projects related with Innovation and Technology. Consultant of many municipalities to the Smart Cities theme and Tourism sector based on the newest technologies and communication tools.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*