“Carros ligados” vão desligar as rádios do FM

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Há alguns anos atrás o mundo da rádio ficou abalado com as novidades trazidas pelos estudo de opinião que davam conta de um decréscimo acentuado, contínuo e assustador do número de pessoas que ouvia rádio.

Ouvir rádio em Portugal e no mundo parece que é, para muitos, um ritual eterno e em constante renovação de ouvintes, mercado e tecnologia. De certa forma sim, estes três diretórios estão em permanente evolução, contudo, o mundo da rádio, em Portugal e noutros países, nem sempre evolui ao mesmo tempo, à mesma velocidade e parece não existir atualmente uma sintonia no mundo da rádio propriamente dito com a tríade ouvintes, mercado, tecnologia.

Uma doença crónica atinge o setor da rádio. E, se não foi a TV e a Internet que ditaram há uns anos a sua extinção (contrariamente ao que se vaticinava), poderá ser, muito brevemente, um dos seus ecossistemas preferidos a derruba-la num knock-out violento: o automóvel do futuro que já é presente.

 

O setor Rádio em Portugal

No caso português as emissões ditas tradicionais de rádio em FM são reguladas e sujeitas e licenciamento e concurso público.

SAMSUNG DIGIMAX A503Não abordando o caso das rádios nacionais e generalistas (que são um mundo à parte neste apontamento), há desde os anos 80/90, altura em que foram licenciadas a maior parte das rádios locais (até então ativas de forma ilegal num movimento que ficou conhecido na época como “rádios pirata”), dezenas e dezenas de emissores, que já não conseguem ser economicamente sustentáveis inviabilizando os projetos, a maioria cooperativos.

A segunda vaga de licenciamentos e atribuição de alvarás ocorreu já no novo milénio e teve algumas diferenças nomeadamente o modelo de organização empresarial das entidades que concorreram, a maioria Sociedade Comerciais de Responsabilidade Limitada, empresas portanto. Apesar desta alteração organizacional nas detentoras de alvarás, o modelo de negócio continuou longe de ser sustentável e, sem dúvida, embaraçoso para muitos dos projetos cuja viabilidade económica foi validada, elogiada e exultada.

Naturalmente existem exceções e casos distintos. Por exemplo, é reconhecido que Estações de Rádio do litoral possuem mais recursos financeiros que as rádios das zonas do interior. Mas esta “realidade” não ocorre por motivos relacionados com o modelo de gestão da rádio, da sua inovação e criatividade na captação de novos ouvintes e correspondente fidelização. Há inclusive exemplos de maior criatividade e inovação nas rádios do interior mais empobrecido. Então porque é que umas estão economicamente débeis e outras pujantes? Possivelmente devido a uma questão demográfica, ou seja, rádios com maior potencial de ouvintes conseguem rentabilizar melhor os seus produtos, faturando mais e assim, obtendo uma segurança financeira acrescida.

Mas cada caso é um caso e, voltando aos licenciamentos e concursos, percebe-se que há uma heterogeneidade enormíssima na gestão das rádios locais. Desde logo, na primeira fase, devido ao amadorismo que emanava do movimento das “piratas”. Mas mesmo geridas por pessoas menos qualificadas ou totalmente desconhecedoras do setor, tiveram bons momentos económicos, resultantes da moda, do poder e da atração que as rádios locais trouxeram à sociedade aproximando os ouvintes com as suas comunidades, culturas, tradições, notícias, eventos, etc. Foram os momentos de glória das rádios locais.

Mas o modelo económico sustentado numa “moda” é pernicioso e assim, quando a moda esmoreceu, com o aumento gradual das velocidades de internet, a agressividade e poder de atração avassalador das TV’s e mais recentemente as Redes Sociais, estas rádios, outrora gloriosas, sentiram imensas dificuldades económicas, algumas acabaram mesmo por falir (perdendo os alvarás) e outras vendidas a grandes grupos nacionais.

E houve alguma diferença entre estas rádios pioneiras e as emissoras da segunda vaga de licenciamento? Poucas. Na verdade, quem geria as primeiras concorreu em muitos casos às segundas e as mesmas dificuldades foram sentidas em ambos os modelos (cooperativo e societário).

 

O que falhou então

A primeira grande falha foi mesmo a ausência de estrutura profissional de gestão. Muitas rádios, durante anos a fio, foram sendo geridas de forma mais ou menos amadora, com mudanças de direção constantes, algumas dessas mudanças nem sempre motivadas por interesses públicos, existiram  muitos casos de “politização” dos emissores em todo o país e isso ocorreu precisamente no momento em que a rádio teve mais força. Contudo, a submissão a poderes, podendo resolver pontualmente problemas económicos e de tesouraria, enfraqueceu-a junto dos ouvintes e da comunidade, ferindo-as na independência, na credibilidade, etc.

Com a chegada das “vacas magras” de ouvintes e publicidade, sente-se o declínio efetivo de todo o sector. E ainda mais agudizado pelo “abandono” a que foram muitas das rádios votadas também pelo poder político, outrora ávido de controlar e influenciar patrocinando e subsidiando e promovendo os seus principais atores para outros palcos. Sem ouvintes e sem credibilidade a rádio deixou de ser interessante e útil.

O declínio era inevitável e as sucessivas crises ditaram uma nova vaga de falências, projetos zombies geridos por máquinas e música a metro.

 

Uma renovação em falso

Apesar de todas as vicissitudes a maioria sobreviveu à hecatombe, modernizou-se, contratou profissionais e pareceu ganhar novo fôlego no combate às redes sociais, ao mp3, à TV, à Internet, etc.

Esta aparente nova vida da rádio em Portugal tem porém várias debilidades:

  • Está demasiado dependente da industria musical
  • Em muitos casos mantém-se uma dependência total dos poderes (económico e político)
  • Mantem gestores e responsáveis sem competência demasiado conservadores
  • Sistema de medição de audiências complicado e com pouca fiabilidade
  • Mercado publicitário continua em baixa
  • Está híper-dependente  do automóvel

As perspetivas não são animadoras e, se em diversas partes do globo, como por exemplo nos Estados Unidos da América têm surgido inúmeros projetos criativos e inovadores, adaptados aos novos tempos e à nova era “Connected”, em Portugal e de uma forma geral na Europa, o setor mantém-se firmemente agarrado ao modelo conservador baseado na exclusividade proporcionada pelo licenciamento do espectro de banda FM e pela regulação do sector paralelo, por exemplo nos Direitos de Autor e na fiscalização de rádios online sem licença. Estas últimas recriando o movimento “pirata” dos anos 80, aportando uma alternativa de conteúdo mais vanguardista, inovadora e criativa, logo, mais atrativa para nichos de público já bem definidos como são os ouvintes “conectados”.

Esta sombra do online tem sido desde sempre a maior dor de cabeça da rádio tradicional. Fruto do conservadorismo e amadorismo (referidos atrás) da gestão das rádios, a primeira medida é aderir ao online fazendo exatamente o mesmo produto que têm no FM. O sucesso é enganador, o online deixou de ter fronteiras territoriais e o ouvinte transformou-se num elemento chave não só de uma emissão como de muitas e variadas.

A rádio tradicional mantém o seu estatuto novamente devido ao peso institucional e cultural de uma licença para emissão em FM.

 

E quem para o FM…

Um estatuto que está nos dias de hoje, literalmente, por um fio. O FM resiste muito por culpa da possibilidade de ouvir as rádios enquanto nos deslocamos. Exatamente, os veículos são verdadeiramente a última fronteira de uma era. A era do FM, da rádio tradicional e de modelos de negócio arcaicos, amadores e sem futuro num mercado normal. Como é um mercado fechado, aguentam-se como podem, sem gerar riqueza nem contribuindo para a economia. Vão sobrevivendo e evoluindo lentamente e quase de forma compulsiva. Enquanto isso, os primeiros interessados na rádio fazem exatamente o oposto, estão em constante evolução.

article-new-thumbnail-ehow-images-a00-3f-b8-strengthen-fm-radio-800x800Os ouvintes, por exemplo, estão em permanente busca de conteúdos novos, produtos inovadores que os aproximem e façam vibrar e catapultar para um imaginário de outras gerações. Naturalmente é muito mais complicado agora do que o era nos anos 40/50 ou até nos anos 80, épocas em que a rádio foi rainha e imperatriz. Mas, apesar de tudo, há ainda exemplos de que isso é possível, basta existir criatividade e mente aberta para a inovação. Do lado do ouvinte essa predisposição sempre esteve presente.

O mercado é outro item diretamente interessado na rádio, e também ele tem avidez de inovação, criatividade e energia capaz de ligar os seus produtos e serviços com os clientes (novos e velhos) gerando vendas, riqueza e prosperidade. O próprio mercado evolui e moderniza-se. Está atualmente dividido entre diversas opções, onde vai resistindo a paixão pela rádio, mantendo ainda um pé na ligação comercial com a industria FM, apesar dos retornos não serem suficientemente sólidos e comprovados.

Finalmente a tecnologia que, na última década, deu saltos exponenciais em direções que há 20 ou 30 anos atrás julgávamos impossível. Muita dessa tecnologia inovadora foi surgindo para resolver inclusive problemas crónicos do sector de radiodifusão, mas recentemente tem evoluído noutros sentidos e nem todos coincidentes com o FM. Talvez a tecnologia que salvou e manteve as rádios à tona, acabe por desintegrar o modelo tradicional que subsiste. Como? Por exemplo, atingindo a rádio FM num dos seus pilares de sustentabilidade: a mobilidade.

 

Tecnologia Connected Cars vai ser o carrasco do FM?

Desde há alguns anos a esta data, sobretudo nos últimos 2, têm sido inúmeras as inovações no campo da conectividade automóvel. Todas as grandes marcas há muito tempo que têm desenvolvido protótipos mas o mercado parecia não querer absorver, talvez para não partir a espinha de forma cruel ao sector tradicional broadcast.

screen-shot-2014-06-25-at-7-18-13-pmMas tudo mudou com a entrada dos 3 gigantes tecnológicos no jogo. Apple, Microsoft e Google que revelou este mês a sua plataforma especial android para Auto, uniram-se à industria automóvel e… revolução. Um mundo novo emerge. Um momento que inspirou startups à escala global, umas a desenvolver para a indústria automóvel, outras para a indústria de software e ainda outras para o setor das rádio telecomunicações (não incluindo o FM).

Em Portugal por exemplo, surge a spinoff Veniam Works que já está integrada no sistema global de stakeholders de conhecimento e inovação com soluções novas de tecnologia LTE e similar para a transformação do carro num hotspot móvel!

O gigante TESLA anunciou há dias que ia disponibilizar os seus projetos em plataformas opensource! É o primeiro passo para a massificação, crescimento e emancipação da tecnologia nos veículos automóveis. E não apenas na área dos conteúdos. Este setor é apenas um entre muitos, como espelha bem outro projeto português Mobicarinfo Infotainment System.

Este mês, decorreu em Amsterdão a cimeira mundial dedicada ao LTE com centenas de delegados a debater com o setor das telecomunicações o futuro do espetro e as suas finalidades. E não é por acaso que em simultâneo decorre o evento Connected Cars, no mesmo espaço! Tudo misturado e em sintonia a preparar-se para desferir o golpe final nas ideias arcaicas e avançar em direção a um novo paradigma.

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Segundo a BMW, todos os seus carros serão conectados já em 2015.

E no meio de todo este turbilhão onde estão as rádios tradicionais? É uma questão pertinente. Espero, que estejam atentas. Se não estão, nesta altura há uma outra frente competitiva que vai saber aproveitar o espaço vazio e a nova oportunidade. Plataformas como o Radionomy, Spotify, TuneIn, Rdio, etc estão povoadas de excelentes projetos de conteúdo. Projetos sedentos de chegar de forma permanente aos ouvidos dos cidadãos, saltando fora dos computadores, quebrando a barreira final que os impedia de ombrear no mercado com o FM: o automóvel. Para uns o fim, para outros o inicio. Ambos ao virar da próxima esquina!

ARTIGO PUBLICADO EM ESPANHOL NA PLATAFORMA I-AMBIENTE 

Esta publicação também está disponível em: Inglês

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Vitor Pereira

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After 20 years of Journalism and Media Professional, I'm dedicated since 2008 to new projects related with Innovation and Technology. Consultant of many municipalities to the Smart Cities theme and Tourism sector based on the newest technologies and communication tools.