A Tecnologia e a Humanidade nas cidades

IMG_3829Não tem sido fácil encontrar uma universalidade totalmente consensual em torno do tema das “Cidades Inteligentes” ou Smart Cities. Se por um lado, existe o lado tecnológico, científico, frio, pragmático e inovador por outro existe todo um bloco de intervenientes activos na sociedade, através da humanidade, cultura, da arte, da criatividade, da política, gestão e decisão.

Uma pequena amostra destas duas visões e realidades surgiu no passado dia 31 de outubro no âmbito de um Workshop dedicado ao tema “O Futuro das Cidades, as Cidades do Futuro – Desafios e oportunidades para projectos urbanos inovadores no contexto Latino – IberoAmericano”. Uma iniciativa por sua vez integrada no XV Congresso Latino – IberoAmericano de Gestão de Tecnologia – ALTEC 2013 que decorreu este ano na cidade do Porto, e que juntou dezenas de especialistas, investigadores e professores de instituições de renome desta área geográfica do globo.

Pretendeu-se, segundo a organização do workshop a cargo do Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento, do Instituto Superior Técnico de Lisboa, “o debate a nível internacional sobre a modernização das cidades e a identificação de soluções”.

Diversos exemplos de trabalhos de investigação e inclusive exemplos práticos como os “Sensores urbanos” e os protótipos de sensores para humanos destacaram-se nesta iniciativa que decorreu no Centro para a Excelência e Inovação na Indústria Automóvel (CEIIA) na Maia. Contudo, foi nas questões filosóficas e de sociologia quase pura que o debate aqueceu com as visões do outro lado do atlântico relacionadas com a vida nas cidades e a humanização das mesmas.

“Para termos cidades inteligentes temos de ter pessoas inteligentes, cidadãos plenamente integrados e a contribuir”, referia Carlos Vainer, responsável do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional na Universidade Federal do Rio de Janeiro que lançou algumas contribuições para o debate utilizando “as utopias” históricas e ancestrais das aglomerações humanas, da vida em sociedade, no fundo, das cidades. Vainer, teme que a “Polis tenha sucumbido à City”, ou seja, “a cidade do negocio suplantou e tomou o lugar da cidade do pensamento, a cidade da política”, referindo-se aos vários exemplos que estão à vista de todos, onde há fracções sociais e onde a cidade mal consegue respirar. “Esta em vigor a utopia da Cidade Empresa, cada uma das cidades a competir por localização, espaço, negócios, dinheiro e onde a política foi banida”, acrescenta.

Uma outra visão polémica foi transmitida por outro brasileiro, arquitecto, biólogo e estudioso do tema das Smart Cities. José Luis Moutinho, considera que “apenas mudam os nomes, isto é a mesma coisa das Cidades Digitais de há vinte anos atrás”, refere. “E que resultados tiveram essas opções das grandes multinacionais que inundaram as cidades com tecnologia e parangonas?”, questiona. Moutinho, referiu no workshop que “devemos devolver as cidades aos cidadãos” mas não através da pomposidade do “Sensing City” ou de outra moda “qualquer”. O caminho, segundo o investigador, está na criação de redes humanas, na transmissão do conhecimento e na assimilação natural e evolutiva de sistemas que melhoram a vida dos cidadãos mantendo a sua  identidade humana.

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Antes de Moutinho e Vainer, tinha intervido Jean Barroca do Banco Mundial. Barroca enalteceu as virtudes da tecnologia e chamou a atenção de que mesmo os grandes “players” universais e interventivos como o Banco Mundial “estão a mudar o paradigma para casar a tecnologia com a humanidade de uma forma que resulte para todos”, referiu.

Catarina Selada, da INTELI, a Associação que está a dinamizar a Rede de Cidades Digitais em Portugal, recordou também na sua intervenção que ao nível da União Europeia está a ser dada prioridade a todas estas questões, revelando que estão em cima da mesa programas europeus especificamente para esta área no valor de 200 milhões de euros.

O evento terminou com o CEO da “By”, Pedro Janela, um empreendedor de sucesso a garantir que não há tecnologia sem o homem e alertou para a “extinção praticamente confirmada dos empregos rotineiros” no mundo ocidental que passaram a ser executados por robôs ou pelos países com mão de obra competitiva.

Vitor Pereira

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