Pai! Mãe! Criei uma Start Up (I)

Tornou-se uma inevitabilidade, quase diária e constante, ouvir e ler notícias, na imprensa, na rádio, na TV, na internet, sobre casos de sucesso no mundo das chamadas startups e empresas com jovens empreendedores brilhantes, acabados de sair das Universidades e Politécnicos, alguns ainda a estudarem, mas como se destacam de uma forma ou de outra, são “captados” para spinoffs que já se encontram nesse bebedouro de financiamento e holofotes mediatizados.

Já todos ouvimos histórias de jovens fora de série, que, com 18, 19 ou 23 anos, alcançaram de um momento para o outro um sucesso explosivo com a sua criatividade, inovação e capacidades intelectuais ou técnicas. De repente, esse jovem, praticamente sem trabalhar uma semana, sem nunca ter pago a funcionários, nem sequer tem carta de condução, é lançado para a ribalta mediática de um sistema que está a moldar a sociedade para vibrar com este tipo de casos de sucesso. Como se fossem os faróis que todos os jovens universitários e no ensino superior devessem seguir, cegamente, apoiados pelos “caça-talentos” das universidades que os orientam para esta ou aquela área de atividade que consideram ter boas probabilidades de ser inovadora e diferenciadora.

Eis que, em todo o mundo, há, neste preciso momento, o movimento Startup que parece querer acabar com o desemprego e “enriquecer” o maior número possível de pessoas. Floresce a ideia – alimentada por governos, por instituições de ensino com anos de história e recheadas de conhecimento e massa critica, por empresas – que todos podem ser empresários e todos podem aceder a esse maravilhoso mundo do “jovem-brilhante-que-acabou-de-lançar-uma-aplicação-de-telefone-qualquer-que-a-Google-ou-o-Facebook-compra-por-uns-milhoes-e-depois-vive-dos-rendimentos”.

É um movimento Startup que está a ser financiado, numa gigantesca parte, pelas grandes instituições financeiras globalizadas. É uma nova versão dos “capitais de risco” e dos ‘Hedge Funds’ que ganha corpo, e que, nas barbas de todos é mundialmente aceite, ou pelo menos de todos os que sentimos e estamos a sentir na pele a dureza da austeridade imposta precisamente por desvarios desse tipo de atividade financeira.

Mas a memória é curta. Contudo, há quem não tenha dúvidas em afirmar que está neste momento a solidificar-se uma escola “Neoliberal”, em que há uma geração a disputar os fundos de capitais de risco, e nesse processo, quase como um “treino para a vida” vão-se tornando arrogantes, egoístas, competitivos, paranoicos, ambiciosos e materialistas. Uma “escola” que parasita a criatividade de muitos dos nossos jovens, para os transformar em “psicopatas do mundo do capitalismo”, despindo-os de emoções, de sentimentos, preparando-os para uma dita selva que mais não é que o próprio terreno de jogo ou campo de treinos e recrutamento para os novos líderes, que por sua vez, garantirão o futuro deste sistema.

Este movimento Startup está também a ser o motor de muitas cidades no mundo e, como é óbvio, também em Portugal, pois o simples facto de muitos jovens brilhantes se deslocarem para os ecossistemas criativos em busca da sua oportunidade dourada, faz com que a massa crítica se desenvolva nessas cidades e deixe outras na penumbra. E as cidades adoptam este sistema, alimentam-no, colocam todos os holofotes nos nichos que mais cedo ou mais tarde podem vir a degenerar numa coisa bem pior que jovens endinheirados e bem sucedidos. Fazem-no porque politicamente também precisam mostrar resultados, que as coisas estão a melhorar, que o desemprego diminui e que temos “jovens de sucesso garantido”.

Os fluxos estão por contrariar, e no caso das cidades do interior, é urgente encontrar ideias diferentes que estanquem, pelo menos, a saída em massa de toda uma geração.

Perder os nossos filhos e netos para o litoral já é mau demais. Mas perdê-los para um lado sombrio do capitalismo selvagem em que as artes, o sentimento, a amizade, o companheirismo são apenas temporários e ferramentas para subir na vida, à custa do insucesso de outros que ficam para trás, pode ser um preço alto demais a pagar.

Há quem defina a atual austeridade como passageira porque é apenas uma pequena questão material de ajuste orçamental e, mal ou bem, há ainda um sentimento solidário embrenhado nas gerações mais antigas.

Um novo tipo de austeridade pode estar a ser “fabricado” não se sabe onde (ou talvez se saiba), em que solidariedade também se comercializa, exporta e gere-se. Precisamos que os nossos jovens evitem estes “fundos tóxicos” e que, com todos os riscos e dificuldades próprias de quem cresce, se fortaleçam e ganhem experiência, criem coisas realmente inspiradoras. Porque a nossa definição de sucesso ficou curta, aborrecida e limitada. Quase instantânea.

Esta publicação também está disponível em: Inglês

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Vitor Pereira

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After 20 years of Journalism and Media Professional, I'm dedicated since 2008 to new projects related with Innovation and Technology. Consultant of many municipalities to the Smart Cities theme and Tourism sector based on the newest technologies and communication tools.

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