Encontrar soluções energéticas inteligentes e sustentáveis um desafio da iniciativa “Smart Biomass”

image[6]Pan y Guindas, em Palencia; San Francisco, em Santander; 4 de Marzo, em Valladolid. Para quem não conhece as cidades espanholas, estes nomes pouco dizem, contudo, são as denominações de três bairros, cada qual com as suas características  e idiossincrasias próprias, dificuldades e potencialidades. Foram também os bairros que estiveram em cima da mesa de uma original iniciativa da Associação Espanhola de Valorização Energética da Biomassa (AVEBIOM), no passado dia 26 de Fevereiro, em Valladolid. Uma “oficina de Smart Biomass”, ou por outras palavras, “como integrar a biomassa numa Smart City”, refere Silvia Lopez, da organização.

O setor da energia está no centro da discussão, em todo o mundo se procuram alternativas viáveis e sustentáveis para, por um lado, diminuir a dependência dos combustíveis fósseis e, por outro (consequência), reduzir as emissões poluentes para atmosfera, cumprindo os protocolos e acordos internacionais em vigor.

A Europa há muito que pretende assumir-se como o grande “motor” da investigação e desenvolvimento tecnológico de energias verdadeiramente alternativas, “e a biomassa é uma das fontes de energia que está a ganhar adeptos”, refere a organização, existindo já um cluster em particamente todos os países. Um cluster tecnologicamente avançado, com investigação e modelo de negocio sustentável, tanto para os destinatários (utilizadores finais) como para as empresas integradas na fileira da Biomassa.

A iniciativa da AVEBIOM – enquadrada no projeto SMART BIOMASS, apoiado pelo Ministério da Industria, Energia e Turismo espanhol e financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) –, juntou cerca de 30 participantes, não apenas oriundos ou ligados diretamente ao setor energético, mas também muitos profissionais relacionados com o planeamento, gestão, Novas Tecnologias de Informação, consultores, responsáveis da administração pública e até decisores políticos. Esta heterogeneidade provocou um debate profundo sobre a sustentabilidade das cidades e dos próprios países, cada vez mais dependentes da energia e dos ‘big players’  e stakeholders do setor. Esta dependência, até ao nível da governação, pode estar a comprometer uma real e efetiva sustentabilidade e adesão aos modelos de energias alternativas existentes, que necessitam ainda de serem “subsidiados” para ganharem escala e descolarem finalmente para a linha da frente do desenvolvimento, da utilização massiva e, num mundo perfeito, ajudarem a extinguir com as emissões poluentes, maioritariamente provocadas pela utilização dos combustíveis fósseis.

Biomassa tem mercado

De resto, a biomassa tem sido um tipo de energia alternativa bastante competitiva com as fontes de energia tradicionais. No consumo privado, por exemplo, muitos utilizadores já optaram pela instalação de sistemas baseados no consumo de biomassa para aquecimento. Fazem-no muito devido à relação qualidade/preço é certo, mas vamos também ter fé e acreditar que há um nicho que reconhece as evidentes vantagens ambientais da utilização deste tipo de recurso natural, limitado, sem dúvida, mas ainda assim abundante e renovável.

Tem sido bem mais complicada a adoção deste tipo de energias alternativas por parte das cidades e comunidades e na maioria dos casos nem tem a ver com a vantajosa e saudável utilização da biomassa (ou solar, ou geotérmica, ou eólica), mas devido aos custos de instalação e rentabilidade concorrencial com as fontes de energia mais “tradicionais”. E esses custos estão, na maioria dos casos, relacionados com erros do passado (e alguns do presente e até futuro). Com planeamento urbano deficiente, edificações nada eficientes em termos energéticos, falta de visão estratégica num sector energético que há 20, 30 ou 40 anos era secundário, apesar de a opinião pública e as sucessivas crises obrigarem a uma discussão e reflexão, que não foi acompanhada pelo poder político e administrativo.

Foi o que percebemos todos nesta iniciativa Smart Biomass em Valladolid, que Pan y Guindas, San Francisco e 4 de Marzo, por mais que tenham uma comunidade sensibilizada para as questões ambientais e de sustentabilidade e equilíbrio dos recursos do planeta, nunca iriam conseguir adotar modelos de energia alternativa sem o respectivo financiamento público para desintegrar os problemas da má construção das habitações (mal isoladas, com fachadas sem rotura térmica, infraestruturalmente incompletas nos sistemas de distribuição, etc.), mau planeamento territorial, dificuldades ao nível de logística de produção, armazenamento, distribuição, etc. “Tínhamos de ter um orçamento ilimitado ou então aumentar a factura do consumidor”, para levar avante alguns projetos de mudança de paradigma energético. E não só aqui nestes três exemplos. Este é um problema de muitas cidades no mundo.

Um problema que iniciativas como esta da AVEBIOM, com a utilização de ferramentas tão simples como o Lego e a mistura de pessoas interessadas, criativas, inovadoras e com poder de decisão ou pelo menos de persuasão, podem ajudar a contrariar algumas “inevitabilidades”. E este é o momento certo, pois o setor da energia é um dos principais nas “linhas de financiamento europeu do Horizonte 2020”. Os polos de I&DT, os responsáveis políticos, os movimento associativos de cidadãos, todos, vão ter de olhar para a energia de outra forma, levar por diante as experiências piloto e colocar os clusters já existentes no topo das prioridades.

Por fim, o utilizador final, que foi quem esteve em destaque neste workshop. Todos os grupos tiveram de se colocar na pele do ator principal, perceber como recebem os estímulos de consumo e, ao mesmo tempo, quase de forma esquizofrénica, aderem às campanhas de poupança, e perceber ainda como o equilíbrio entre “a necessidade” e “o excesso”, tem uma fronteira mínima que resulta em agravamentos nas faturas ao final do mês. “Fizeram os possíveis e os impossíveis”, adianta um dos participantes, e pela qualidade das soluções e conclusões finais, “já valeu a pena o encontro”, garante outro. Ter problemas na cabeça é bom, “obriga-nos a encontrar soluções”, conclui Orla De Diez, a dinamizadora do workshop.

Os planos de negocio de energias alternativas têm de resultar e tem de ser competitivos

Os planos de negócio de energias alternativas têm de resultar e tem de ser competitivos. Os consumidores, nem sempre olham para as propostas mais vantajosas para o ambiente, mas, “se tiverem as duas opções ao mesmo preço, escolhem a mais verde”. Contudo, a esquizofrenia manter-se-à sempre, a menos que as políticas energéticas acabem de vez com o negócio da energia e com os lucros, transformando-o num direito universal dos cidadãos e aí, encontrando os mecanismos necessários para o sustentar, financiar e subsidiar.

Porventura será utópico pensar num mundo ideal com cidadãos smart e governos smart. Para já, vamos tendo uns mais que outros e vice-versa. Com todos os problemas que isso causa à humanidade.

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After 20 years of Journalism and Media Professional, I'm dedicated since 2008 to new projects related with Innovation and Technology. Consultant of many municipalities to the Smart Cities theme and Tourism sector based on the newest technologies and communication tools.

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