A ‘Ruralização’ das Áreas Urbanas

Cidade de Chaves (Trás-os-Montes)

Cidade de Chaves (Trás-os-Montes)

É uma estatística que sai em todas as conferencias de urbanismo: pela primeira vez na história do planeta, a maioria da população vive em cidades. Em 2050, 70 por cento da população viverá em zonas urbanas. Este números são já um cliché de tão repetidos e uma forma de revelar a “importância” das “cidades”.

Contudo, segundo Sarah Goodyear, uma especialista dedicada ao tema das Cidades e do Urbanismo, “estas estatísticas escondem uma realidade mais profunda e complexa”. Essa realidade mostra que a distinção entre urbano e rural, entre cidades e subúrbios e campo, está a desaparecer à medida que as populações crescem e as estruturas sociais tradicionais se dissolvem. “As fronteiras entre as diferentes formas de vida estão a esbater-se”, refere. Quer isto dizer que a “urbanização” representa atualmente uma coisa diferente do que era no passado.

A distinção entre urbano e rural está a desaparecer

Um ensaio de certa forma provocativo foi publicado há algumas semanas atrás no “Future Capetown” e escrito por Beloved Chiweshe, que transforma por completo a ideia de urbanização na sua essência. Chiweshe, antigo secretário geral da Zimbabwe National Students Union, aborda aquilo que ele apelida da “ruralização das áreas urbanas”. E ele aponta especificamente a dureza desta “ruralização” para o género feminino, nomeadamente na grande maioria dos países africanos e asiáticos, onde as cidades estão a atrair pessoas de regiões isoladas e distantes que abandonam o seu modo de vida “ancestral” em busca de oportunidades. Muitas dessas populações, e sobretudo as mulheres, na sua maioria, acabam por ter uma vida pior e mais desumana nos arredores das cidades que, devido ao aumento populacional, deixam de ter condições mínimas para manter o bem estar, inclusive dos cidadãos que já a povoavam. Falta água, falta energia, falta comida e faltam soluções para resolver um drama humano que os países subdesenvolvidos estão a sentir na pele fruto da globalização e do abandono dos campos e das áreas rurais.

Enquanto isso, no mundo ocidental…

A realidade é quase a mesma. Os fluxos das populações estão orientados para as cidades e áreas urbanas em todo o mundo ocidental, daí a importância de encontrar soluções adequadas para manter uma qualidade de vida e de habitabilidade dentro dos parâmetros aceitáveis da humanidade e nomeadamente do cidadão ocidental. Torna-se um desígnio das cidades descobrir essas soluções “inteligentes” que suportem o bem estar dos cidadãos quer nas suas necessidades básicas (água, energia, alimento), como nas necessidades que acabam por estar na origem desses mesmos fluxos (economia e emprego, cultura, educação).

No caso de Portugal, há décadas que se assiste a um abandono dos campos e do interior do país. O fenómeno, trouxe problemas às cidades da faixa litoral, que estão agora a procurar soluciona-los, contudo, é no interior do país que as políticas da administração central têm de incidir, devolvendo a ruralidade às áreas urbanas, por exemplo, promovendo o surgimento de clusters adequados e estratégicos (agro-industria, turismo, etc) e em simultâneo replicar os factores de atração das cidades que, em teoria, serviriam por um lado para atrair população, por outro, para evitar a sua perda.

Esta publicação também está disponível em: Inglês

About Vitor Pereira
Vitor Pereira

View all Posts

After 20 years of Journalism and Media Professional, I'm dedicated since 2008 to new projects related with Innovation and Technology. Consultant of many municipalities to the Smart Cities theme and Tourism sector based on the newest technologies and communication tools.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*