Deixo um pedaço do meu coração em YinChuan

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Ainda mal digeria a ventania de pragmatismo das cidades americanas e inunda-me a próspera e firme vontade dos chineses. Não me importa a política nem a geoestratégia mas absorvo sensações e comunico emoções. Ou pelo menos tento. Mas é cada vez mais difícil. Escrever ou falar sobre cidades inteligentes deixou de me seduzir. Prefiro vivê-las, senti-las. Sentir o pulsar, o fluxo contínuo ou alterno de correntes smart que amarram os cidadãos, as administrações, os políticos… correntes que são de aço, de bronze, de ouro, de prata, de platina. Enfim, com adornos, com mais ou menos resistência, eficazes ou insuficientes. Assim poderia classificar as formas de comunicação e os fluxos de mensagens numa cidade, pela qualidade da infra-estrutura e, naturalmente, pela eficácia e qualidade da mensagem e conteúdo.

thumb_IMG_0834_1024Infelizmente há ruído. Começa a ser demasiado. Começam a ser muitas as interrogações sobre o que é uma Smart City ou sobre se a tecnologia isto se aquilo. Já não interessa. Ou assumimos de uma vez por todas que o mundo nunca poderá viver sem cidades, e estas têm de saber viver com o resto do mundo, ou então cairemos no abismo profundo da extravagância sem sentido, do dogma marcadamente exibicionista de ferramentas que pouco ou nada servem para melhorar a vida quotidiana dos cidadãos, nada ou pouco ajudam a resolver problemas, antes pelo contrário, agudizam-nos e tornam a inteligência impotente, ineficaz, desastrada, uma filha parida da morbidez inflacionada da mediocridade e do inútil.

Todas estas sensações até as poderia ter manifestado no preciso momento em que noto a chuva, o cinzento, a névoa, em pleno aeroporto de Pequim. A espera do voo de ligação para outra cidade chinesa fazia prever o pior. A meteorologia faz realmente sair o pior de nós. Eu pelo menos fico nostálgico, parado, taciturno e bruto comigo e com os outros.

Tudo muda, felizmente para melhor, no momento em que chego a YinChuan, o meu destino final.

 

Evento junta mais de 300 líderes e influentes

 

O evento TMForum In Focus Smart City 2015, organizado pela importante Associação Industrial e de Profissionais TM Forum, já se tinha assumido uma surpresa pela positiva. Apenas o confirmei no exato momento em que me deparo com a fluidez de tudo. Mas mesmo tudo funcionava. E assim respirei fundo, esqueci o mau tempo de Pequim, aguardei pela manhã seguinte e… sol brilhante, céu azul, calor. YinChuan recebia-nos de braços abertos, com luz, acarinhava-nos com a sua moderada brisa morna. Estava pronto para a descoberta. Estava na China e até então sabia apenas que YinChuan era inteligente pelo que tinha visto na internet e nas pesquisas prévias. YinChuan prometia e parecia querer cumprir.

thumb_IMG_0760_1024Não vou aprofundar muito mais do que consistiram as ações promovidas no âmbito deste evento. Desde a visita ao Citizen’s Hall ou ao bairro inteligente, até à conferencia dedicada ao tema das Smart Cities. Tudo aprontava-se para ser um sucesso uma marca de qualidade incontornável, quer pela qualidade dos oradores, como também pela pertinência dos temas, ainda mais numa cidade chinesa.

Mas o que realmente fez a diferença, foi a assistência. O que surpreendeu foi a qualidade mais que a quantidade, foi a exclusividade mais que a normalidade. A organização levou a YinChuan, gente de todos os setores (administradores, políticos, associações, ong’s, jornalistas, comunicadores, investigadores, académicos, bloggers, telcos, etc). Esta diversidade e a certeza que eram o público certo, pois exigente, colocou o evento no patamar correto e acentuou em definitivo a cidade chinesa no mapa das Smart Cities.

thumb_IMG_0771_1024Todo o convívio era franco, direto, acutilante e extremadamente amistoso. Fiz muitos amigos, para além dos que já tinha ali reencontrado. É o mais valioso de qualquer evento, que se façam mais amizades que negócios. Que sejam a franqueza e o convívio as ferramentas que melhor desbloqueiam processos, assumidamente fulcrais para que cidades, organizações, governos funcionem de forma eficaz. Novamente a comunicação como principal fator de estabilidade e progresso. Assim foi.

Mas fará assim tanta diferença que um evento, a desenrolar-se numa cidade longínqua e perdida na imensidão de um país como a China, seja um farol para soluções inteligentes? Teria este evento a bondade de nos apresentar YinChuan de forma transparente? Teria a cidade argumentos para obrigar os cépticos a aceitarem as suas derrotas? Teria um grupo heterogéneo, ávido de conhecimento, de experiências, de coisas novas, capacidade de ver os seus anseios cumpridos, as suas expectativas ultrapassadas? Sim.

O evento da TM Forum foi uma chave inglesa que colocou imensos parafusos e porcas no devido lugar e perfeitamente fixas. Foi o evento que organizaram que mostrou uma YinChuan ao mundo. E a cidade chinesa aceitou mostrar-se, abriu-se. Primeiro com a Expo Arabe-China que ali decorria, depois com as iniciativas anunciadas com vista a progredir mais ainda enquanto Smart City. Uma dessas iniciativas, a criação do primeiro Centro Mundial de Inovação de Smart Cities, em parceria com a ZTE. O objetivo deste centro será congregar esforços internacionais para implementar casos de estudo, standards e boas práticas em Smart Cities com vista a servir cidades e municípios em todo o mundo.

 

A cidade enquanto templo

 

Tudo parecia justo e perfeito. Até o tempo.

thumb_IMG_0977_1024Mas ainda faltava algo. Como já é meu habito, perco-me em todas as cidades que visito. Em YinChuan, ainda foi mais fácil, uma vez que os mapas online não funcionavam, a qualidade da internet também não ajudava e para agravar a situação, a língua. Viajar pela cidade recorrendo ao táxi é barato. Também existe uma versão chinesa do Uber. O mais complicado é mesmo fornecer as indicações e direções. Ou alguém no hotel as escreve para nós mostrarmos ao condutor, ou então ficamos à deriva totalmente perdidos na tradução.

Perdi-me muito em YinChuan, mas, curiosamente, não me senti perdido de todo. O que senti foi uma paz e uma calma espiritual que ainda não tinha experimentado em templos de cidade. Uma sensação que poderia ser comparada aos templos da floresta, do campo, da montanha. Não numa cidade. Mas encontrei um recanto budista onde os insetos, as aves, os repteis pareciam entoar melodias, carinhosas, amistosas. Não sei como funciona o processo de reencarnação de acordo com os budistas, mas a verdade é que senti ali muita humanidade, muita paz, muitos espíritos e boas vibrações. Certamente que os exageros ébrios e a noite anterior mal dormida também contribuíram para a minha sonolência espiritual, mas era paz que sentia. Era bom.

 

Cinema em Chinês

 

No regresso à cidade perdi-me de novo. Entrei num dos muitos Centros Comerciais de Yinchuan, este, propriedade de alguém muito influente na China. O ímpeto consumista está de pedra e cal no país. As lojas são bem decoradas, o atendimento afável e, ao contrário do que seria de esperar, nada soa a artificial. Até mesmo os néon e leds que cobrem carros, máquinas, prédios inteiros, dão um ar de sua graça. A cidade precisa dessa energia.

Os cinemas estavam bastante concorridos. Era a estreia do filme dos Minions. Entrei para ver e assisti até ao fim a versão chinesa. Não aprendi cantonês mas senti a atmosfera e até dei gargalhadas como os outros. As piadas gráficas são sempre melhores.

E não podemos cometer o erro de sair da cidade sem passar pelo Museu de Arte Contemporânea. Um dos ex-libris culturais de YinChuan com garantia de qualidade.

thumb_IMG_0888_1024thumb_IMG_0883_1024Continuava perdido em YinChuan. Perdido entre ruas e ruelas, entre mercados de animais de estimação, hortaliças, plantas, frutas, roupa, guloseimas… cada travessia de uma via pública era uma aventura (perigosa). Dou comigo a pensar como poderia o bairro que tínhamos visitado anteriormente, repleto de tecnologia, calma, silêncio, fazer parte da mesma cidade. Mas a verdade é que, tirando os táxis e os transportes públicos (autocarros) a maioria dos peões e condutores parecem civilizados. Haverá com certeza sítios bem piores e bem mais perigosos. Para já, gostava de estar perdido. Ainda não estava minimamente preocupado. Até porque precisava de experimentar a comida e acabei por me sentar na zona dos barbecues tradicionais a comer setas (cogumelos), galinha e bolas de peixe entre os locais.

Onde vemos então Yinchuan como Smart City? Para mim, pela paixão. É uma cidade apaixonante, com problemas, certamente, mas com uma postura dos seus responsáveis a indicar que o caminho é na direção do bem estar dos cidadãos. E estes? Sentem essa oportunidade? Pelo que conheci, sim.

 

Empresas lideram Tecnologia e Investigação

 

Contactei com uma das muitas empresas de Yinchuan ligadas à tecnologia. Um dos setores que os responsáveis da cidade querem desenvolver e fazer progredir.

A empresa Ningxia Sine Technology Group Co., Ltd. É uma tecnológica que investiga e desenvolve produtos e serviços para a Internet das Coisas (IOT), big data, segurança, privacidade e mobile. Está totalmente imbuída na construção de Smart Cities focando muito da sua atividade para o projeto Sinelife, contribuindo para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos através da ciência e tecnologia.

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E também se confirma que é uma das empresas inteligentes! Porquê? Porque desenvolvem com criatividade soluções que aproximam os cidadãos de serviços e produtos recorrendo à tecnologia. Um dos casos de sucesso desta empresa, com mais de 200 funcionários, foi o desenvolvimento de uma plataforma de e-commerce baseado numa aplicação para smartphones. Produtos e serviços podem ser adquiridos com simples cliques. As entregas são rápidas e os benefícios evidentes. Quer para os cidadãos com dificuldades de mobilidade, quer para os mais ocupados e com menos vontade de perder tempo e dinheiro à procura do fornecedor certo.

A solução ganhou escala com o desenvolvimento de uma identidade, promoção, campanhas de rua, visitas de responsabilidade social a escolas e instituições, um sem número de boas práticas que dão razão à teoria de que os ambientes criativos promovem a solidificação de Cidades Inteligentes.

YinChuan é assim. Enorme, dispersa, honrada, pacata, verde (muito verde), humilde e pacífica. É também apaixonante na forma como recebe e parte o coração de quem a deixa. Um pouco do meu ali ficou, espero regressar em breve para o recuperar, para ver como a inteligência, as emoções e a persistência, juntos formam um bloco respeitável e sólido. Pelo menos a mim convenceu-me. Smart City Yinchuan. Sem dúvida.

Esta publicação também está disponível em: Inglês

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Vitor Pereira

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After 20 years of Journalism and Media Professional, I'm dedicated since 2008 to new projects related with Innovation and Technology. Consultant of many municipalities to the Smart Cities theme and Tourism sector based on the newest technologies and communication tools.

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